FISIONOMIAS VEGETAIS

O Cerrado é um complexo vegetacional que possui relações ecológicas com outras savanas da América, África e Austrália.

Para padronizar as pesquisas e informações sobre a fauna e a flora que ocorrem no Cerrado, diversas classificações das diferentes fisionomias vegetais que compõem este bioma foram propostas. Aqui, apresentamos a classificação proposta por José Felipe Ribeiro e Bruno Teles Walter, pesquisadores da Embrapa Cerrados (CPAC), em 1998.

Esta classificação, que divide o Cerrado em formações florestais, savânicas e campestres, baseia-se primeiramente na forma (fisionomia), definida pela estrutura e formas de crescimento dominantes (árvores, arbustos ou ervas) e em possíveis mudanças estacionais (perda de folhas na estação seca). Posteriormente, são considerados aspectos ambientais, como o tipo de solo e a composição florística.

FORMAÇÕES FLORESTAIS: Matas de galeria, Mata ciliar (sempre associadas à presença de cursos d’água), Mata seca e Cerradão ( que ocorrem em terrenos bem drenados, não associadas a cursos d’água). Todas estas formações são compostas primordialmente por árvores eretas.

FORMAÇÕES SAVÂNICAS: Formações dominadas por estrato arbustivo-arbóreo que coexiste com camada graminosa contínua. Árvores e arbustos torutosos e bastante ramificados: Cerrado sentido restrito, Parque Cerrado, Palmeiral e Veredas.

FORMAÇÕES CAMPESTRES: Formações dominadas por estrato graminoso, com árvores e arbustos mais ou menos esparsos, classificadas em: Campo Sujo, Campo Rupestre e Campo Limpo.

FORMAÇÕES FLORESTAIS

Mata Ciliar: Vegetação que acompanha os leitos de rios de médio e grande porte, não formando galerias. É geralmente estreita (dificilmente com mais de 100 metros de largura).

Tem composição florística bastante semelhante a Mata Seca, diferenciando-se desta por estar associada a cursos d’água. Por outro lado, apresenta espécies vegetais distintas da Mata de Galeria. Boa parte das espécies da Mata Ciliar apresentam caducifolia (perda completa de folhas durante parte da estação seca), enquanto que as espécies da Mata de Galeria são sempre-verdes.

A formação é semi decídua ( maioria das espécies é caducifolia, mas há algumas sempre-verdes). Altura média 20-25m. Cobertura arbórea de cerca de 90% nas chuvas e 50% na seca.

Espécies típicas: Anadenanthera spp. (Angicos), Apeiba tibourbou (pau-de-jangada, pente de macaco), Aspidosperma spp. (perobas), Celtis iguanaea (grão de galo), Enterolobium coontortisiliquum (tamboril), Inga spp. (ingás), Myracrodruon urundeuva (aroeira), Tabebuia spp.(ipês).


Mata de Galeria: Vegetação de grande porte que ocorre ao longo de pequenos e córregos no Planalto Central, formando "galerias". As espécies que compõem/formam as matas de galeria são pereniformes, não apresentando perda de folhas durante a seca. É a formação de Cerrado que costuma apresentar maior ocorrência de espécies epífitas, como orquídeas. Geralmente, as matas de galeria são circundadas por faixas de vegetação não florestal, havendo uma transição abrupta para campos ou formações ditas savânicas.

Altura média 20-30 metros, sobreposição de copas promove uma cobertura vegetal de 70 a 95%.

As matas de galeria podem ser formadas por dois sub-tipos, de acordo com as características do relevo, altura do lençol freático e espécies vegetais presentes: as matas de galeria inundáveis e as não-inundáveis.

Espécies comuns: Bauhinia rufa (pata-de-vaca),Callisthene major (tapicuru), Cardiopetalum calophyllum, Cariniana rubra (jequitibá), Cheiloclinum cognatum, Erythroxylum daphnites, Guarea guidonea (marinheiro), Guarea kunthiana (marinheiro), Licania aoetala (ajurú, oiti)


Mata Seca: São formações florestais que ocorrem não associadas a cursos d’água, em solos geralmente mais ricos em nutrientes. As matas secas, de acordo com o tipo de solo em que ocorrem e a composição florística que apresentam podem ser classificadas em três sub-tipos que se referem à perda foliar que ocorre no período seco, seão eles: Mata Seca Sempre-Verde, Mata Seca Semidecídua (a mais comum) e Mata Seca Decídua. O dossel fechado durante a estação chuvosa desfavorece a presença de arbustos, enquanto que a perda foliar durante a seca (mesmo por parte das espécies sempre-verdes, que não ficam totalmente sem folhas, mas apresentam perda foliar) não possibilita a presença de epífitas em grande quantidade, como bromélias e orquídeas.

Altura média: 15-25m, cobertura arbórea, durante as chuvas: 70-95%, pode ser inferior a 50%, principalmente nas Mata Seca Decíduas.

Espécies comuns: Amburana cearensis (cerejeira, imburana), Anadenanthera colubrina (angico), Cariniana estrellensis (bingueiro, jequitibá), Cassia ferruginea (canafístula-preta), Cedrela fissilis (cedro), Centrolobium tomentosum (araribá), Chloroleucon tenuiflorum (jurema), Dilodendron bippinatum (maria-pobre), Guazuma ulmifolia (mutamba)


Cerradão: O Cerradão pode ser descrito como "uma mata mais rala". Sua estrutura é florestal, mas a apresenta mais espécies comuns com o cerrado que com a mata. Composto por árvores de menor porte que as de mata, o Cerradão propicia a ocorrência de arbustos e gramíneas em seu interior. Os solos onde ocorrem os cerradões tem fertilidade média ou mesmo baixa, sendo profundos e bem drenados.

Altura média: 8-15m, cobertura arbórea entre 50 e 90%

Espécies comuns: Callisthene fasciculata (jacaré-da-folha-grande), Caryocar brasiliense (pequi), Copaifera langsdorffi (copaíba), Emmotum nitens (sobre, carvalho), Hirtella glandulosa (oiti), Lafoensia pacari (mangaba-brava, pacari), Magonia pubescens (tinguí), Siphoneugenia densiflora (maria-preta)

FORMAÇÕES SAVÂNICAS


Cerrado sentido restrito: Caracteriza-se pela presença de árvores baixas e tortuosas, com cascas grossas e ramificações irregulares e retorcidas. As folhas são em sua maioria grossas e com pêlos, características que evitam a perda excessiva de água.

Os arbustos e subarbustos estão espalhados. Muitas espécies apresentam órgãos subterrâneos permanentes (como os xilopódios), onde são armazenadas reservas energéticas. O que confere resistência aos longos períodos de estiagem comuns no Cerrado, e permitem que estas plantas rebrotem no início das chuvas, mesmo tendo perdido completamente sua parte aérea durante a seca.

Os solos onde ocorrem este tipo de vegetação são em geral profundos, ácidos (pH 4,5-5,5), carentes em nutrientes (principalmente fósforo e nitrogênio) e com grande abundância de Alumínio, elemento que é tóxico para as plantas.

A densidade arbórea nas áreas de Cerrado Sentido Restrito é bastante variável e é influenciada por condições do solo, como pH e quantidade de Alumínio presente, fertilidade, condições hídricas e profundidade do solo, além da freqüência de queimadas.

De acordo com a densidade de árvores presentes nas áreas de Cerrado Sentido Restrito, esta fitofisionomia pode ser subdividida em: Cerrado Denso, Cerrado Típico, Cerrado Ralo. Há ainda o Cerrado Rupestre, que se caracteriza por ocorrer sobre solos rasos, frequnetemente com afloramentos rochosos. O Cerrado Rupestre apresenta espéciesadaptadas a estas condições particulares, diferentes dos outros três subtipos de Cerrado Sentido Restrito.

Espécies comuns: Acosmium dasycarpum (amargosinha), Annona crassiflora (araticum), Astronium fraxinifolium (gonçalo-alves), Brosimum gaudichaudii, Bowdichia virgilioides (sucupira-preta), Byrsonima coccolobifolia (murici), Caryocar brasiliense (pequi), Connarus suberosum, Curatella americana (lixeira)


Parque de Cerrado: formação savânica que apresenta árvores agrupadas em pequenas elevações, conhecidas como "murundus". Os murundus têm de 0,1 a 1,5 metros de altura e podem chegar a 20 metros de diâmetro, sua origem está provavelmente associada à presença de cupinzeiros. Normalmente os solos onde ocorrem estas formações são hidromórficos e os murunduns apresentam-se mais bem drenados, favorecendo a maior concentração de árvores.

Espécies comuns: Alibertia edulis, Andira cuyabensis, Caryocar brasiliense (pequi), Curatella americana (sambaíba) , Dipteryx alata (baru), Eriotheca gracilipes, Maprounea guianensis, Qualea grandiflora (pau-terra), Qualea parviflora


Palmeiral: Formação savânica que se carcteriza pela dominância de uma única espécie de palmeira arbórea. Quando há presença de árvores dicotiledôneas, isto ocorre em baixas freqüências. Em geral os palmeirais, que podem ser o Babaçual, Macaubal, Guerobal, entre outros (de acordo com a espécie de palmeira dominante), ocorrem em solos bem drenados, mas podem também ocorrer em terrenos mal drenados (brejosos).

Espécies comuns: Acronomia acuelata, Attalea spceiosa (babaçu), Mauritia flexiosa (buriti), Mauritiella armata (buritiana)


Veredas: São formações dominadas pela palmeira arbórea Mauritia flexuosa (o buriti) que apresentam agrupamentos de vegetação herbácea-arbustiva. As veredas são sempre encontradas em solos hidromórficos (brejos), em geral saturadas de água durante a maior parte do ano. As veredas são circundadas por Campo Limpo e ocorrem em planícies, em locais de afloramento do lençol freático, próximas a nascentes ou na borda das Matas de Galeria.

Espécies comuns: Richeria grandis, Symplocos nitens, Virola sebifera


FORMAÇÕES CAMPESTRES

Campo Sujo: Fitofisionomia exclusivamente herbáceo-arbustiva, com arbustos e sub-arbustos esparsos. Os solos onde ocorrem são rasos ou profundos, porém com baixa fertilidade. As plantas que ocorrem no Campo Sujo podem ser as mesma que as de Cerrado Sentido Restrito, no entanto, aqui apresentam-se menos desenvolvidas. Há três subtipos de Campo Sujo: o Campo Sujo Úmido, quando o lençol freático é superficial, o Campo Sujo Seco quando o lençol é profundo e o Campo Sujo com Murundus quando há pequenas elevações de relevo.

Espécies comuns: Alstroemeria spp., Gomphrena officinalis (para-tudo), Griffina spp., Hippeastrum spp, Paepalanthus spp. (chuveirinho)


Campo Rupestre: formação herbáceo-arbustiva que ocorre em regiões com afloramentos rochosos, a altitudes acima de 900 metros. São solos ácidos e pobres em nutrientes, que abrigam uma flora extremamente peculiar, que apresenta altos índices de endemismo (espécies exclusivas, que ocorrem apenas neste tipo de formação). As plantas concentram-se em locais específicos, como fendas entre a rocha ou pontos de maior umidade do solo, mas há também espécies que crescem diretamente sobre as rochas, como algumas orquídeas.

Gêneros comuns: Baccharis, Lychnophora, Vernonia (pertencentra à famila Asteraceae), Dyckia, Tillandsia (Bromeliaceae), Melocactus, Pilosocereus (Cactaceae), Bulbostylis, Rhynchospora (Cyperaceae), Eriocaulon, Leiothrix, Paepalanthus, Syngonanthus (Eriocaulaceae)



Campo limpo próximo a uma mata de galeria.

Campo Limpo: fitofisionomia herbácea que apresenta arbustos esparsos e ausência de árvores. Pode ocorrer em diferentes tipos de solo e condições de topografia. No entanto, é mais comum nas encostas, nas chapadas, nos ólhos d’água ou nascentes, circundando veredas ou nas bordas de matas de galeria.

Assim como o Campo Sujo apresenta-se como Campo Limpo Seco, Campo Limpo Úmido ou Campo Limpo com Murundus.