AÇÕES PRIORITÁRIAS PARA A CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE DO CERRADO E PANTANAL
 
Um dos maiores desafios para os responsáveis pelas decisões quanto à conservação da biodiversidade nos trópicos é a definição de planos de ação e linhas de financiamento diante da carência de informações sobre como e o que preservar prioritariamente. Na última década, várias iniciativas levaram à identificação de prioridades mundiais para a conservação, considerando índices de diversidade biológica, grau de ameaça, ecorregiões, entre outros critérios.

A identificação de prioridades regionais representa um passo adiante neste esforço, quando as decisões podem ser traduzidas em ações concretas, com a aplicação eficiente dos recursos financeiros disponíveis. O Programa de Ações Prioritárias para os Grandes Biomas Brasileiros foi estruturado especialmente para desenhar estratégias regionais de conservação da biodiversidade para os principais ecossistemas do país.

O sucesso dessas estratégias depende, em grande parte, do comprometimento dos setores ligados à utilização e proteção dos recursos naturais com as propostas apresentadas. Em vista disso, uma abordagem participativa foi adotada, por meio da qual especialistas de diversas áreas de conhecimento e atuação identificam, em conjunto, medidas que possam contribuir para a proteção da biodiversidade regional. O consenso técnico-científico e a incorporação dos resultados nas políticas públicas nacionais endossam e fortalecem as estratégias definidas e criam um contexto favorável para a efetiva implantação das medidas.

O complexo formado pelo Cerrado e Pantanal é a primeira região contemplada por esse Programa. Baseada nos Workshops Regionais realizados pela Conservation International, a mesma abordagem está sendo utilizada para outras quatro regiões, a Mata Atlântica e os Campos Sulinos, a Amazônia, a Caatinga e a Região Costeira.


Ipê amarelo
(Tabebuia >>>>)
Foto: Reinaldo Lourival.

O Projeto de Ações Prioritárias para a Conservação da Biodiversidade do Cerrado e do Pantanal foi concebido para avaliar a riqueza biológica e os condicionantes sócio-econômicos da região e apresentar bases técnicas para a sua conservação. Em março de 1998, um Workshop reuniu, em Brasília, mais de 200 especialistas em diversos temas e teve como principal resultado o Mapa de Áreas Prioritárias. Foram identificadas 87 áreas e receberam orientações específicas para sua conservação. Recomendações gerais quanto à utilização da diversidade biológica para a região também foram apresentadas, incluindo modelos de repartição de benefícios econômicos e de manejo sustentável dos recursos naturais.

O Cerrado foi considerado no sentido amplo, incluindo as formações abertas do Brasil Central (desde o campo limpo ao cerradão e os campos rupestres) e as formações florestais características (veredas, matas de galeria e matas mesofíticas). Além disso, foram incluídos os cerrados periféricos de São Paulo e do Paraná e as savanas amazônicas do Pará, Amazonas, Roraima e Amapá.

O Pantanal Mato-grossense foi incluído nessa análise, pois, suas nascentes situam-se dentro do domínio savânico e sua biota terrestre tem afinidade com a do Cerrado. Entretanto, o Pantanal tem particularidades, como as dinâmicas sócio-econômicas e a dominância de áreas inundáveis e, por isso, recebeu um tratamento diferenciado na elaboração de estratégias de conservação, especialmente quanto à recomendação de implantação de corredores ao longo dos rios, interligando as áreas prioritárias.  

 
Panorama do Cerrado e Pantanal

Há uma impressão errônea de que o Cerrado é um bioma biologicamente pobre. Ao contrário, esta é uma das regiões de maior biodiversidade do planeta e cobre 25% do território nacional. Estimativas apontam mais de 6000 espécies de árvores e 800 espécies de aves, além de grande variedade de peixes e outras formas de vida. Calcula-se que mais de 40% das espécies de plantas lenhosas  e 50% das espécies de abelhas sejam endêmicas, isto é, só ocorrem nas savanas brasileiras. Devido a esta excepcional riqueza biológica, o Cerrado, ao lado da Mata Atlântica, é considerado um dos hotspots mundiais, isto é, é um dos biomas mais ricos e ameaçados do planeta.

O Cerrado é uma formação do tipo savana tropical, com extensão de cerca de dois milhões de km² no Brasil Central, com uma pequena inclusão na Bolívia. A fisionomia mais comum é uma formação aberta de árvores e arbustos baixos coexistindo com uma camada rasteira graminosa.  


Área de Cerrado Sensu stricto. Estação Ecológica de Maracá (RR). 

 Existem, entretanto, várias outras fisionomias, indo desde os campos limpos até as formações arbóreas.

Nas últimas décadas, o Cerrado tem sido visto como uma alternativa ao desmatamento na Amazônia, sendo proposta a exploração mais intensa dessa região, seja por expansão agrícola, seja por plantios florestais para fixar carbono atmosférico. O processo de ocupação do bioma chegou a tal ponto que não é mais apropriado considerá-lo como "fronteira". A ocupação humana e a construção de estradas fizeram com que a massa contínua de área com biota natural se transformasse numa paisagem cada vez mais fragmentada, composta por ilhas inseridas numa matriz de agroecossistemas.

A extensa transformação antrópica do Cerrado tem o potencial de produzir grandes perdas de biodiversidade, especialmente em vista das limitações das áreas protegidas, pequenas em número e concentradas em poucas regiões. O grau de endemismo da biota do Cerrado é significativo e pouco se conhece sobre a distribuição das espécies dentro do bioma, embora esforços importantes de pesquisa tenham sido iniciados na década de 80.

O Pantanal, a maior planície inundável do mundo, com mais de 110.000 km², reúne um mosaico de diferentes ambientes e abriga uma rica biota terrestre e aquática. O frágil equilíbrio dos ecossitemas pantaneiros, definidos por dinâmicas de inundações periódicas, está sendo ameaçado pelas novas tendências de desenvolvimento econômico. Os modelos tradicionais de pesca e pecuária estão sendo rapidamente substituídos pela exploração intensiva, acompanhada de desmatamentos e alteração de áreas naturais.


Nhecolândia (MS)

 
Metodologia

As discussões entre os especialistas para a identificação de
áreas prioritárias foram promovidas em duas etapas: a fase preparatória e o Workshop. Essas atividades reuniram informações de alta qualidade sobre a região com o vasto conhecimento e as experiências individuais dos participantes.

Durante a fase preparatória, conduzida entre 1996 e 1997, consultores levantaram e produziram dados científicos, indicadores sócio-econômicos e mapas cartográficos atualizados. Em dezembro de 1996, uma reunião preparatória para o Workshop possibilitou uma primeira análise das informações, organizadas nos seguintes temas: Aspectos Físicos, Botânica, Invertebrados, Répteis e Anfíbios, Aves, Mamíferos, Biota Aquática, Cobertura Vegetal do Cerrado, Sócio-Economia e Unidades de Conservação. Os mapas e relatórios foram disponibilizados na Internet para avaliações prévias pelos participantes da etapa seguinte.

Em março de 1998, os principais especialistas no conhecimento regional foram reunidos no Workshop de Ações Prioritárias para a Conservação da Biodiversidade do Cerrado e Pantanal. Durante cinco dias, cientistas de diversas áreas, profissionais ligados à gestão governamental, especialistas em sócio-economia e populações humanas, representantes do setor empresarial e de  organizações não-governamentais realizaram um esforço conjunto para fornecer as bases técnicas para a conservação do Cerrado e Pantanal.

Os participantes foram, inicialmente, divididos por grupos temáticos para identificar áreas prioritárias dentro da ótica de cada tema e do grau de conhecimento científico sobre a diversidade biológica.

 O conceito de prioridade foi definido a partir de dois critérios básicos:

 l A importância biológica e
 l A urgência das ações para a conservação de áreas.

 A importância biológica tem um amplo espectro de avaliação, desde o nível de espécies até o das grandes paisagens. Os locais de ocorrência de endemismo, de espécies raras e ameaçadas, de espécies migratórias e de interesse econômico, de uso cultural ou tradicional foram identificados. Foram também mapeadas as grandes extensões contínuas de cobertura vegetal nativa, da ordem de 100.000 ha ou mais. 

Além dos dados biológicos, foram utilizados outros elementos determinantes de biodiversidade como clima, solos e relevo.  

A urgência de ações de conservação foi avaliada pelas pressões demográficas, a vulnerabilidade das áreas naturais às atividades econômicas e expansão urbana, e os incentivos atuais aos diversos tipos de exploração econômica.  

Em seguida, as informações obtidas nos grupos temáticos foram cruzadas pelos participantes, agora reunidos em grupos multidisciplinares separados em regiões geográficas.  Os grupos integradores identificaram áreas de importância consensual entre os diversos temas, mas também puderam destacar situações únicas que exigissem atenção especial. Em reuniões plenárias, com apresentação da síntese dos trabalhos, o mapa geral de prioridades foi refinado e as estratégias de conservação discutidas.

 

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Prioritárias

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