O
Projeto de Ações Prioritárias para a Conservação da Biodiversidade do
Cerrado e do Pantanal foi concebido para avaliar a riqueza biológica e os
condicionantes sócio-econômicos da região e apresentar bases técnicas
para a sua conservação. Em março de 1998, um Workshop reuniu, em
Brasília, mais de 200 especialistas em diversos temas e teve como
principal resultado o Mapa de Áreas Prioritárias.
Foram identificadas 87 áreas e receberam orientações específicas para
sua conservação. Recomendações gerais quanto à utilização da
diversidade biológica para a região também foram apresentadas,
incluindo modelos de repartição de benefícios econômicos e de manejo
sustentável dos recursos naturais.
O
Cerrado foi considerado no sentido amplo, incluindo as formações abertas
do Brasil Central (desde o campo limpo ao
cerradão e os campos rupestres) e as formações florestais características
(veredas, matas de galeria e matas mesofíticas).
Além disso, foram incluídos os cerrados periféricos de São Paulo e do
Paraná e as savanas amazônicas do Pará, Amazonas, Roraima e Amapá.
O
Pantanal Mato-grossense foi incluído nessa
análise, pois, suas nascentes situam-se dentro do domínio savânico e
sua biota terrestre tem afinidade com a do Cerrado. Entretanto, o Pantanal
tem particularidades, como as dinâmicas sócio-econômicas e a dominância
de áreas inundáveis e, por isso, recebeu um tratamento diferenciado na
elaboração de estratégias de conservação, especialmente quanto à
recomendação de implantação de corredores ao longo dos rios,
interligando as áreas prioritárias.
Panorama
do Cerrado e Pantanal
Há uma impressão errônea de
que o Cerrado é um bioma biologicamente pobre. Ao contrário, esta é uma
das regiões de maior biodiversidade do
planeta e cobre 25% do território nacional.
Estimativas apontam mais de 6000 espécies de árvores e 800 espécies de
aves, além de grande variedade de peixes e outras formas de vida.
Calcula-se que mais de 40% das espécies de plantas lenhosas
e 50% das espécies de abelhas sejam endêmicas, isto é, só
ocorrem nas savanas brasileiras. Devido a esta excepcional riqueza biológica,
o Cerrado, ao lado da Mata Atlântica, é considerado um dos hotspots
mundiais, isto é, é um dos biomas mais ricos e ameaçados do planeta.
O
Cerrado é uma formação do tipo savana tropical, com extensão de cerca
de dois milhões de km² no Brasil Central, com uma pequena inclusão na
Bolívia. A fisionomia mais comum é uma formação aberta de árvores e
arbustos baixos coexistindo com uma camada rasteira graminosa.

Área
de Cerrado Sensu stricto. Estação Ecológica de Maracá
(RR).
Existem,
entretanto, várias outras fisionomias, indo desde os campos limpos até
as formações arbóreas.
Nas
últimas décadas, o Cerrado tem sido visto como uma alternativa ao
desmatamento na Amazônia, sendo proposta a exploração mais intensa
dessa região, seja por expansão agrícola, seja por plantios florestais
para fixar carbono atmosférico. O processo de ocupação do bioma chegou
a tal ponto que não é mais apropriado considerá-lo como
"fronteira". A ocupação humana e a construção de estradas
fizeram com que a massa contínua de área com biota natural se
transformasse numa paisagem cada vez mais fragmentada, composta por ilhas
inseridas numa matriz de agroecossistemas.
A
extensa transformação antrópica do Cerrado tem o potencial de produzir
grandes perdas de biodiversidade, especialmente em vista das limitações
das áreas protegidas, pequenas em número e concentradas em poucas regiões.
O grau de endemismo da biota do Cerrado é significativo e pouco se
conhece sobre a distribuição das espécies dentro do bioma, embora esforços
importantes de pesquisa tenham sido iniciados na década de 80.
O
Pantanal, a maior planície inundável do mundo, com mais de 110.000 km²,
reúne um mosaico de diferentes ambientes e abriga uma rica biota
terrestre e aquática. O frágil equilíbrio dos ecossitemas pantaneiros,
definidos por dinâmicas de inundações periódicas, está sendo ameaçado
pelas novas tendências de desenvolvimento econômico. Os modelos
tradicionais de pesca e pecuária estão sendo rapidamente substituídos
pela exploração intensiva, acompanhada de desmatamentos e alteração de
áreas naturais.

Nhecolândia (MS)
Metodologia
As discussões entre os especialistas para a identificação de
áreas prioritárias foram promovidas em duas
etapas: a fase preparatória e o Workshop. Essas atividades
reuniram informações de alta qualidade sobre a região com o vasto
conhecimento e as experiências individuais dos participantes.
Durante
a fase preparatória, conduzida entre 1996 e 1997, consultores levantaram
e produziram dados científicos, indicadores sócio-econômicos e mapas
cartográficos atualizados. Em dezembro de 1996, uma reunião preparatória
para o Workshop possibilitou uma primeira análise das informações,
organizadas nos seguintes temas: Aspectos Físicos, Botânica,
Invertebrados, Répteis e Anfíbios, Aves, Mamíferos, Biota Aquática,
Cobertura Vegetal do Cerrado, Sócio-Economia e Unidades de Conservação.
Os mapas e relatórios foram disponibilizados na Internet para avaliações
prévias pelos participantes da etapa seguinte.
Em
março de 1998, os principais especialistas no conhecimento regional foram
reunidos no Workshop de Ações Prioritárias para a Conservação
da Biodiversidade do Cerrado e Pantanal. Durante cinco dias, cientistas de
diversas áreas, profissionais ligados à gestão governamental,
especialistas em sócio-economia e populações humanas, representantes do
setor empresarial e de organizações
não-governamentais realizaram um esforço conjunto para fornecer as bases
técnicas para a conservação do Cerrado e Pantanal.
Os
participantes foram, inicialmente, divididos por grupos temáticos para
identificar áreas prioritárias dentro da ótica de cada tema e do grau
de conhecimento científico sobre a diversidade biológica.
O
conceito de prioridade foi definido a partir de dois critérios básicos:
l
A importância biológica e
l
A
urgência das ações para a conservação de áreas.
A
importância biológica tem um amplo espectro de avaliação, desde o nível
de espécies até o das grandes paisagens. Os locais de ocorrência de
endemismo, de espécies raras e ameaçadas, de espécies migratórias e de
interesse econômico, de uso cultural ou tradicional foram identificados.
Foram também mapeadas as grandes extensões contínuas de cobertura
vegetal nativa, da ordem de 100.000 ha ou mais.
Além
dos dados biológicos, foram utilizados outros elementos determinantes
de biodiversidade como clima, solos e relevo.
A
urgência de ações de conservação foi avaliada pelas pressões demográficas,
a vulnerabilidade das áreas naturais às atividades econômicas e expansão
urbana, e os incentivos atuais aos diversos tipos de exploração econômica.
Em
seguida, as informações obtidas nos grupos temáticos foram cruzadas
pelos participantes, agora reunidos em grupos multidisciplinares separados
em regiões geográficas. Os grupos integradores identificaram áreas de importância
consensual entre os diversos temas, mas também puderam destacar situações
únicas que exigissem atenção especial. Em reuniões plenárias, com
apresentação da síntese dos trabalhos, o mapa geral de prioridades foi
refinado e as estratégias de conservação discutidas.